segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUADRO POLÍTICO ALIMENTA AUMENTO DA VIOLÊNCIA NO CAMPO. ARAGUAÍNA NEWS

Levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), revela que de janeiro a junho deste ano já chegam a 40 o número de assassinatos por disputa de terra no país.


Só nos cinco primeiros meses do ano, mortes no campo já chegam a 40


O número é preocupante, pois já representa mais da metade das 61 mortes registradas ao longo de todo o ano passado. O aumento da violência é atribuído pela CPT ao atual contexto político e a uma maior pressão de parte da bancada no Congresso que reivindica abertura de novas frentes para o agronegócio.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Humberto Palmeira, membro da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), diz que "com a chegada de Michel Temer ao poder foi dado um sinal verde aos latifundiários e às oligarquias a agirem de forma truculenta, e com certeza há interesses partidários nessas terras".
"É claro que essa violência é política, atribuída ao momento crítico que o país vive, em que o estado democrático de direito está sendo violado. O episódio de Pau D´Arco — onde 10 trabalhadores rurais foram baleados pela polícia durante cumprimento de ação de reintegração de posse da Fazenda Santa Lúcia, no Pará — foi um verdadeiro genocídio. O que assistimos por parte do governo federal foi um show midiático sem muita resolução. Esse episódio de Pau D´Arco é um exemplo de como o golpe deu liberdade para os latifundiários seguirem seus planos", afirma Beto.
O levantamento da Pastoral relativo a 2016 revela que a Amazônia Legal — área que compreende toda a Região Norte e partes do Maranhão e do Mato Grosso — registrou 79% dos assassinatos, 68% das tentativas e 89% das agressões físicas e ameaças de morte. O Estado de Rondônia foi o que mais concentrou o maior número de assassinatos no ano passado.
Para o integrante do MPA, a violência no campo está ligada também a uma disputa de projetos na agricultura brasileira. De um lado, um modelo baseado na concentração de grandes propriedades voltado ao agronegócio e à exportação (basicamente carnes e soja) e, de outro, da agricultura familiar, baseado no não uso de agrotóxicos e na diversidade de produção. Beto observa que boa parte da Amazônia é composta de terras públicas que poderiam ser utilizadas para fins de reforma agrária e instalação de pequenos agricultores.  
"Como a classe política brasileira é vinculada ao latifúndio e ao capital financeiro, a violência é uma violência política, de projetos distintos, um modelo que depende do agronegócio monocultor e outro que defende a terra na posse dos trabalhadores rurais, que tem como objetivo principal abastecer o mercado interno. A gente vive um processo de criminalização dos movimentos sociais. Com a consolidação do golpe, a bancada ruralista ampliou essa criminalização", diz Beto.
Na visão do integrante do MPA, para se falar em democracia no Brasil é necessário se discutir o acesso à terra, uma reforma agrária vinculada a um projeto sustentável de produção de alimentos que possa atender ao mercado interno. Segundo Beto, o MPA discute agora um novo modelo de agricultura para o Brasil, chamado Modelo Camponês, que prevê a criação de uma infraestrutura de produção e distribuição sob controle público e cooperativado.

Spuntik

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