quarta-feira, 30 de maio de 2018

UMA BRASILEIRA NAS ESTRELAS. ARAGUAÍNA NEWS


Astrônoma da NASA, Duília de Mello defende a promoção da mulher e o investimento a longo prazo na ciência


Foto: Reprodução

 
Quando criança, Duília de Mello era fã de ficção científica e da série de televisão Cosmos, produzida pelo cientista Carl Sagan e a escritora Ann Druyan. A brincadeira de criança de desvendar o Universo — seja na imaginação ou pela TV — se transformou em papo de adulto.
Sem aprender muito sobre astronomia na escola, Duília usou a curiosidade sobre o assunto a seu favor e buscou entender o Universo mais a fundo. Em 1985, a paulista que cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro se graduava em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); três anos depois, em 1988, Duília se tornava mestre pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). O doutorado veio em 1995, na Universidade de São Paulo (USP). A astrônoma e astrofísica brasileira passou ainda pelo telescópio espacial Hubble, da agência espacial norte-americana Nasa, durante seu pós-doutorado, e no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile.
A lista de descobertas também impressiona: a cientista fez parte da equipe que desvendou as Bolhas Azuis, aglomerados de estrelas fora das galáxias formados por quase-colisões de gases e turbulências. Em 1997, foi responsável pela descoberta da Supernova 1997D. O currículo extenso, a dedicação e o talento levaram Duília longe. Atualmente, ela é pesquisadora associada do Goddard Space Flight Center, da NASA, e professora da Universidade Católica de Washington, nos Estados Unidos, onde vive. Prêmios de reconhecimento por seu trabalho não faltam.
O Brasil e a ciência
Duília se tornou referência em um país onde o investimento em ciência não é prioridade. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), usando dados de 2013, aponta que o investimento do Brasil em ciência e tecnologia é muito menor se comparado a outras grandes economias. Enquanto o gasto em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como Alemanha, Estados Unidos e Japão foram de 2,83%, 2,74%, 3,48%, respectivamente, o gasto no Brasil foi de apenas 1,24%. Já em 2015, ainda de acordo com o IPEA, o governo federal gastou R$ 37,1 bilhões com ciência e tecnologia — 0,63% do PIB do Brasil.
Em 2000, os gastos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC) com ciência e tecnologia, em relação ao PIB, foram de 0,10%. Depois de 15 anos, o número se multiplicou, mas pouca coisa mudou: o dispêndio da pasta na área foi de 0,12%. O ano mais promissor foi o de 2013, com gastos que somaram 0,18% em relação ao PIB do Brasil. O corte de verba para investimentos na área não é novidade: em fevereiro deste ano, por exemplo, houve um contingenciamento de R$ 477 milhões destinados ao investimento para a ciência do país.
Para Duília, o problema está nos investimentos a longo prazo. “O Brasil investe, sim, em ciência, principalmente na formação de cientistas. Eu mesma sou um fruto disso. No Brasil nós temos um problema muito grave que é a falta de financiamento para pesquisas, principalmente pesquisas a longo prazo”, explica. A tendência brasileira, aponta a cientista, impede que o país se comprometa com projetos de longo prazo, que deem “liberdade para planejar a ciência”.
Duília não se sente otimista quanto a uma mudança próxima para essa realidade. “Nos próximos dois anos, provavelmente, não [muda]. Mas eu espero que os cientistas se envolvam mais em decisões políticas que vão nos levar depois à decisões a longo prazo. Me deixa um pouco motivada saber que tem cientistas que estão interessados neste aspecto político.”

Assim como aconteceu com Duília, as influências presentes na infância são importantes para as escolhas do futuro. Para a cientista, nessa fase da vida, o importante é perceber onde está o talento da criança para que ela seja estimulada da maneira certa e, então, ser um profissional realizado. “Nós temos que dar liberdade para o jovem escolher o que ele quer fazer, e não tentar influenciar de uma forma que imponha uma certa visão”, aponta.
O papel da infância
Foto: Associação Mulher das Estrelas/Reprodução
Pensando no papel da infância na formação do jovem, Duília criou a Associação Mulher das Estrelas, em 2015. Além de incentivar as crianças em geral, o objetivo da A.M.E. é promover a ciência nas escolas brasileiras. Não só nos grandes centros, mas também no interior do país. “O meu objetivo é mudar o mundo um estudante por vez”, declara a cientista no site da ONG. Para Duília, a associação deve funcionar como uma forma de levar esperança aos jovens brasileiros. “Eu, como elas, fui criança um dia; uma menina, de um subúrbio do Rio de Janeiro, que sonhava ser cientista e que segui meus sonhos. A ideia é mostrar para a criança que ela pode fazer o que ela queira fazer.”
Segundo a astrônoma, mais de dez mil jovens já foram impactados de alguma forma pelo trabalho da A.M.E. Para chegar a ainda mais lugares, uma equipe de mulheres está sendo formada para viajar pelo Brasil. “Nós precisamos espalhar essa busca pelo talento nas escolas do Brasil inteiro. A ideia é provocar nas crianças o desejo de ser cientista se esse for o talento dela”, diz Duília.
Promoção da mulher
Segundo o relatório Gender in the global research landscape, publicado no ano passado pela editora científica Elsevier, a participação de mulheres na ciência cresceu entre 1996 e 2015. No primeiro ano da pesquisa, a área era dominada por homens: do total de cientistas brasileiros, 62% eram homens. Atualmente, a equidade está mais próxima, segundo a publicação. Até 2015, 49% dos cientistas atuando no Brasil eram mulheres. Mundialmente, a UNESCO aponta um cenário parecido. Do total de graduandos das áreas STEAM — sigla em inglês para unir ciência, tecnologia, engenharia e matemática —, de 44% a 54% são mulheres.
Para Duília, que vive nesse universo diariamente, muito ainda precisa mudar. “Hoje, realmente, é bem diferente do que era quando eu comecei. Eu vejo a mudança, mas ela é lenta.” A cientista reconhece que, desde que entrou na área, o número de mulheres já aumentou não só na astronomia, mas nas ciências em geral. Mesmo assim, para ela, o esforço de ser uma profissional mulher ainda é maior. “Somos competentes, mas ainda temos que provar que somos o tempo inteiro. Isso nos deixa sempre em desvantagem, porque você perde muito tempo e energia tentando provar que você é tão competente quanto o fulano que tem o escritório do seu lado”, aponta Duília.
Ao longo dos anos, são diversas as mulheres que lutam pela igualdade de gênero. Apesar do esperado por elas ainda parecer estar longe de ser alcançado, foram muitas conquistas. No Brasil, a luta das mulheres pelo direito ao estudo durou de 1822 a 1899. Elas só foram aceitas no serviço público em 1930, no período da República Velha. Há 56 anos, em 1962, as mulheres casadas conquistaram o direito de trabalhar sem precisar da aprovação do marido. Em 2006, a Lei Maria da Penha se somou à luta contra a violência doméstica e familiar contra a mulher.
Por trás de todas essas conquistas estiverem mulheres dispostas a alcançar seus direitos. Mesmo assim, por muitas vezes elas são esquecidas, concorda Duília. A cientista exemplifica citando Tarsila do Amaral, quem considera uma das maiores pintoras de todos os tempos. “O brasileiro desconhece a qualidade, a beleza, o fascínio que a pintura da Tarsila do Amaral provoca. Isso é uma falta de promoção da mulher. A gente precisa promover mais a mulher. Até a mulher mesmo precisa promover mais a mulher, aquilo que ela faz. Tentar descobrir as mulheres que foram esquecidas e promovê-las.”

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